Em qual mentira vamos acreditar?

A magica Iconoclasta

Quando uma pessoa resolve ir pros lados da Iconoclastia é porque não bastou apenas um tipo de revolta, mas foram muitos tipos.

Não adianta só questionar a religião ou ser de esquerda, porque enfim: existem crenças que não são religiosas e esquerdas corruptas.

Privataria Tucana ou Irmãos PTralha? Nada disso parece satisfazer. Então aquela pessoa que acha que vai se tornar iconoclasta vai se firmando no ceticismo que os iconoclastas tem.

Daí os céticos parecem secos demais, ou hedonistas. É, melhor é ficar na iconoclastia mesmo.  Parece ser o mais sensato a se fazer. O mundo inteiro é repleto de tentativas de dominação.

A.C. Baktivedanta Swami Prabhupada uma vez interpretou um ensinamento de Krshna da seguinte (e brilhante) forma:

Srila_Prabhupada
Srila Prabhupada

Nossos olhos enxergam uma bela pintura e orientam nosso corpo a ver a pintura. Nossos ouvidos querem nossa concentração para uma música boa e nossa pele quer abrigo e veludo.  Assim nossos sentidos e necessidades do corpo ficam sempre nos puxando de um lado para o outro, nos desorientando. Isso seria Maya, a ilusão que todos nós temos. E é verdade, todos nós estamos sob uma constante chuva de ilusões e ninguém sai seco.

Mas se é impossível viver sem ilusões, como fica um iconoclasta? Em qual mentira vamos acreditar?

Em princípio, só pelo fato de alguém se fazer essa pergunta, já é sinal que ela tem consciência do que está acontecendo à sua volta.

Escuta, quando você vai ao teatro, não aceita aquela peça, aquele enredo como legítimo? Sim, ou então não teria graça nenhuma. Mesma coisa com todas as demais artes. Nós aceitamos desligar o nosso lado racional com o propósito de fruir do gosto da mentira. Por isso usamos drogas. Por isso aceitamos viver, mesmo sabendo (pelo menos os ateus) que não há mais nada para nossa consciência.

Sobre fruição, um parênteses: Os gregos consideravam beleza como adjetivo que podia ser dado à natureza e belo pertencente às artes. O Belo teria uma parte de mentira, criada pelo homem. Milênios mais tarde inventamos a semiótica, com seus significantes e significados, que, em definição, muito parece com o uso da classificação dos adjetivos naturais ou criados, fecha parênteses.

Mas por mais que sejamos racionais, ainda persistem as borboletas no estômago dos apaixonados. Cada peça da nossa vida que está sem ilusão é uma peça morta.

A mente lavada de uma pessoa que crê nos maniqueísmos artificiais (pleonasmo: não há maniqueísmo natural) que as religiões aplicam, tem a seguinte ideia: O Bom pertence a Deus e o mau, pelo menos se afasta de Deus. Isso quando não tem um diabo no subsolo ou uma encarnação futura toda fodida, daí quanto mais crente, mais mirabolante fica o delírio.

Mas enfim, o que é Bom é de Deus. Então um crente faz alguma coisa boa e sente orgulho e imagina uma recompensa. Ou sente culpa, quando sua ação não é o esperado por Deus.

Bem, existem pesquisas que mostram que os ateus são mais caridosos que os religiosos, mas isso realmente não importa aqui, a revelação dessa pesquisa só pode ser usada de argumento por ateístas, uma racinha que, quando inventa de ser dogmática, sai de baixo!

O que importa é analisar o pensamento de alguém que não espera nada em troca e nenhum julgamento. E aí moram as borboletas. É o ponto onde a realidade se metamorfoseia sem deixar de ser ela mesma.

Por que fazer uma coisa boa, sem ninguém olhando? Orgulho? O orgulho é uma crença também, de que alguma coisa nos faz melhores que outras pessoas. Se essa superioridade não se efetiva, não é orgulho, mas sim amor.

Não é orgulho. E nem mesmo precisa ser amor. Pode não ser nada!

Então não há um propósito?
Não 🙂

Ainda não caiu a ficha? Quanto peso dá pra tirar de cima das costas quando não há um propósito!

Estamos aqui, não sabemos mais nada.  Me lembra uma charge:

breve história do homem
Do que nos adiantam os propósitos? Realmente nada. Não temos o menor indício de nenhum propósito em nada no Universo inteiro, apenas forças que regem a mecânica celeste.

Criamos algumas regras de etiqueta afim de sobreviver enquanto espécie. Os animais cujo córtex cerebral ainda não os livrou plenamente dos instintos agem mais mecanicamente. Nossa espécie resolveu deixar as relações mais complexas e cá estamos discutindo valores humanos, ética, estética e etcétera.

É um vazio que nós temos e que preenchemos com conceitos, maniqueísmos e toda sorte de explicações. Mas não que essas explicações tenham alguma vez resolvido alguma coisa.

Duas teorias mostram isso: A teoria do Bom selvagem versus a do Homem sendo o lobo do próprio homem. O Bom selvagem de Rousseau diz que o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe. A teoria antagonista pertence ao empirista Thomas Hobbes: O homem é cruel,  o lobo de si mesmo, daí que se criou a sociedade para manter a ordem.

Milhares de debates por centenas de anos não resolveram a questão.  Daí atualmente temos um biólogo -vê se pode- o Jared Diamond mostrou que não houve nunca bom ou mau para a criação de um estado: simplesmente as cidades cresceram e precisava haver alguma pessoa exclusiva para resolver os problemas entre membros mais ‘estranhados’ um com o outro. Sem maldades nem bondades.

Estamos continuamente resolvendo o egoísmo contra o coletivismo. Queremos viver com prazer e somos seres sociais, o que nos obriga a ser um pouco dos dois. Sem culpa. Sem perdão. E, muito menos, sem nenhum propósito.

Como é grande o Universo quando não está preso a um julgamento. Iconoclastas não são céticos, apenas não se deixam levar pelas crenças. Não quer dizer que pratique a descrença, porque já vimos, é uma utopia.

Um iconoclasta não luta contra as mentiras, luta contra as idolatrias, que é o vício na mentira e não a mentira usada recreativamente

E até mesmo as utopias são lindas, em toda mentira que elas nos entorpece.  É como diz Mário Quintana em Das utopias, poema que encerra este texto:

 

Se as coisas são inatingíveis… ora!

Não é motivo para não querê-las…

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!

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