Achado arqueológico que fala sobre o Anjo Gabriel é revelado depois de 13 anos

Em Jerusalém, uma exposição mostra pela primeira vez ao público uma pedra com escritos que teriam sido revelados pelo anjo Gabriel. A peça foi encontrada há 13 anos. O achado “data” do século I antes de Cristo, ou seja: interfere diretamente nas três maiores religiões do mundo e causa polêmicas. Ela contém 87 linhas escritas com tinta, algumas apagadas pelo tempo, no que seria uma conversa do anjo com um profeta desconhecido.

Esta matéria pretende elucidar e esmiuçar o caso, além de fazer uma análise sobre o ponto de vista da iconoclastia.

1. O achado

A pedra foi comprada em 1998, por David Jeselsohn, que vive em Zurique, na Suíça, e que declarou tê-la adquirido em Londres, de um antiquário jordaniano. A peça procederia da margem leste do Mar Morto, na Jordânia.  “Eu não podia fazer muito com isso quando eu a peguei” conta David.

“Eu não percebi o quão importante ela era, até que eu a mostrei a Ada Yardeni, especialista em escrita hebraica, há alguns anos atrás. Ela ficou esmagada: “Você tem um dos ‘Rolos do Mar Morto’ em pedra”.

Porém, essa aquisição sem fontes seguras “antiquário jordaniano” gera suspeita, inevitável.

David Jeselsohn e a pedra
David Jeselsohn e a sua pedra

Atualmente, a pedra está no Museu de Jerusalém e foi exposta ao público pela primeira vez nesta semana (primeira semana de Maio), numa exposição, por ocasião dos 60 anos da descoberta dos manuscritos de Qumran.

2. Os manuscritos de Qumram

Qumram é um sítio arqueológico localizado a uma milha da margem noroeste do Mar Morto, a 12 km de Jericó e a cerca de 22 quilômetros a leste de Jerusalém, em Israel.

detalhe do sítio de Qumran

Neste local foram encontrados os manuscritos mais antigos da Torá, a bíblia dos judeus. Os manuscritos começaram a ser achados em 250 A.C., em cavernas da região. Até o ano I, era só cavar com as mãos e achar trechos da Torá.

Este é um exemplo do que era facilmente achado nas cavernas de Quman
Este é um exemplo do que era facilmente achado nas cavernas de Quman

Mas o sítio mesmo começou a oferecer seus prêmios a partir de 1947, quando um beduíno criador de ovelhas achou um manuscrito.  A taxa de chuvas na região é tão baixa que o ar tem cheiro de enxofre. Alguns desses textos datam mil anos antes da versão atual cultuada pelos judeus, incluindo aí os textos apócrifos. Isso gera mais algumas indagações, veremos elas no final desta matéria, todas juntas.

3. Voltando à pedra

A descoberta da pedra que narra passagens do anjo Gabriel foi feita em tinta, o que é muito estranho, uma vez que esse tipo de escrita não era a mais comum. O modo de escrever era esculpindo na pedra. Ok, temos mais suspeitas. Continuemos.

A pedra foi levada por David e a senhora Yardeni para uma análise a um especialista em código hebraico, o senhor Binyamin Elitzur. Este é especializado em hebraico do período do rei Herodes, que morreu em 4 A.C.  Desse encontro saiu uma publicação em 1997 na revista  Cathedra, dedicado à história e arqueologia de Israel, e concluiu que, com base na forma da escrita e da linguagem, o texto é datado do final do século I A.C.

Mas até então os exames foram apenas visuais. Alguém poderia ter simplesmente pintado uma pedra antiga. Precisava um teste eficiente. Então a turma toda procurou ajuda.

A Universidade de Tel Aviv , que tem alto respeito internacional.
A Universidade de Tel Aviv , que tem alto respeito internacional.

Foram até a Universidade de Tel Aviv e falaram com Yuval Goren, um professor de arqueologia da universidade, que faria uma análise química e daria uma resposta.

A resposta dele foi que “Não há nenhuma razão para duvidar da autenticidade da pedra”. Porém, se recusou a dar detalhes da sua análise. Muito feio isso para um cientista, senhor Yuval. Não é assim que se faz ciência, assim se faz ocultismo. Uma descoberta precisa de comprovação pelos pares, o que não ocorreu, nem foi dada a chance de análise. Por que alguém age assim? Científica ou não,  a polêmica estava lançada.

4. Em cena, um iconoclasta

Eis que entra em cena o senhor Israel Knohl, professor iconoclasta de estudos bíblicos da Universidade Hebraica de Jerusalém. E agora é que o circo pega fogo

circo pegando fogo

No ano 2000,  Knohl lançou o seu livro sobre a descoberta da pedra. Chamou seu livro de “Revelação de Gabriel” Um dos seus argumentos mais impressionantes refere à linha 80 da pedra, que anuncia a ressurreição do messias no terceiro dia.

A palavra que elucida a ressurreição está apagada. O texto todo tem falhas, pedaços faltando, esta é uma polêmica que nem vou entrar. Vamos nos ater ao que de fato DIZ.

A pedra fala efetivamente de uma ressurreição de um Messias. E isto foi escrito antes do nascimento de Jesus.
Mas na versão católica o que se diz é que Jesus não foi aceito pela coletividade judaica porque o povo de Israel esperava uma figura política.  Para o povo Judeu, seria inadmissível um Messias sofrendo e morrendo numa cruz. A versão esperada seria de um redentor glorioso que daria uma vingança grandiosa e gloriosa. O problema é que essa tal “decepção” não aconteceu com Jesus, mas sim quatro séculos antes.

A primeira menção extra-bíblica de um messias assassinado é ao chamado Mashiah ben Yosef que é mencionado no Talmude (Sukkah 52a). Provavelmente esse “Messias Assassinado” está ligado à revolta judaica na Terra de Israel após a morte do rei Herodes, em 4 a.C. Esta insurreição judaica foi brutalmente reprimida pelos exércitos de Herodes e do imperador romano Augusto, e os líderes messiânicos da revolta foram mortos. Esses eventos, vistos pelos religiosos da época como apocalípticos, carregaram a concepção do Messias, Filho de Deus morto, contrariando, assim, a concepção antiga do Messias “eterno”. Interpretações do texto bíblico ajudaram a moldar a crença de que a morte do Messias era um elemento necessário e indivisível de salvação. Israel Knohl, professor de Estudos Bíblico da Universidade Hebraica de Jerusalém, comenta:

Minha conclusão, baseada em escritos apocalípticos datados deste período, foi a de que certos grupos acreditavam que o Messias iria morrer, ser ressuscitado em três dias, e subir ao céu.”(In Three Days You Shall Live do Jornal online Haaretz).

Nas linhas 16-17 do texto da pedra, Deus aborda Davi da seguinte forma: “Avdi David bakesh min lifnei Efraim” (“Meu servo David, pergunta Efraim”). Na Bíblia, Efraim é o filho de José. Isso configura uma equivalência entre Davi e Efraim com os talmúdicos “Mashiah ben David” e o “Messias Filho de José”, e confirma a teoria de que o Messias Filho de José já era uma figura conhecida no final do primeiro século a.C.

OK, chega disso.  Quem quiser se aprofundar no sincretismo de Jesus com as lendas messiânicas, leia aqui o trabalho de Israel Knohl, o iconoclasta que botou sangue nos olhos dos cristãos.

5. Vocês ainda estão aqui?

Isto sim é um verdadeiro milagre, eu não tenho tanta paciência assim.

6. Sobre o terceiro dia na astronomia

Um pouco de Zeitgeist básico:

Assistam o vídeo, especialmente a partir de 7:19, quando se fala dos 3 dias e da ressurreição.

OLD dirão os diletantes, UOW dirão os que nunca viram o Zeitgueist. Para vocês do segundo grupo, recomendo o filme todo que, tem sim falhas e apelações, mas no geral ele é bem fiel aos estudos mais sérios.

7. Que Gabriel?

Para a Igreja Ortodoxa Russa, esse é o cara
Para a Igreja Ortodoxa Russa, esse é o cara

Gabriel é um dos quatro anjos maiores que estão à volta de Deus, especificamente, sentado à esquerda de Deus. Representa as quatro estações do ano, as quatro fases do dia e tem outros sincretismos com a astronomia.

  • Primeiro, Gabriel decifrou o sonho do profeta Daniel, num momento histórico do judaísmo.
  • Mais tarde, apareceu a Maria com uma notícia:  “Vai nascer de você o salvador”
  • E foi também Gabriel quem revelou ao profeta Maomé os versos do Alcorão.

Uma vez uma pedra preta caiu do céu. Pode ser um meteorito, se você for cético em relação ao Corão. Mas se você for do Islã, essa pedra não “caiu”. Ela foi um presente do Anjo Gabriel.

galera
Nesse lugar, essa galera toda fica andando em volta daquele quadradão preto no centro.
Esse quadradão é a Casa de Allah. Na esquina dessa casa tem uma pedra. Essa pedra foi um presente de Gabriel à humanidade.
Esse quadradão é a Casa de Allah. Na esquina dessa casa tem uma pedra. Essa pedra foi um presente de Gabriel à humanidade.

Essa Pedra é mais antiga que o Islã, diz a tradição que ela remonta os tempos de Adão e Eva. Era branca, mas se tornou negra devido ao atrito com a chegada a terra, como qualquer outra coisa que cai do céu aos pecados que o homem foi tendo desde aquela época.

8. Conclusão

O nome de Gabriel é sagrado para as três religiões. O descobrimento dessa pedra reforçou a tese de que a imagem do mito de Jesus foi construída. Até que ponto existiu de fato um Jesus histórico? A descoberta da anunciação do Messias e sua volta depois de 3 dias não era novidade na época de Jesus, assim como outras inúmeras lendas sobre sua figura.

Ficar discutindo a existência factual de Jesus Cristo é uma punheta um tempo perdido, quem tem fé vai negar os fatos, quem for mais cético vai duvidar da autenticidade desta pedra, mas não do mito ser anterior a Jesus, os Muçulmanos não se interessam muito pela questão, porque não mexe com o seu mito. A Rede Globo vai transformar esse fato na maior encheção de linguiça da história, cheia de percepções católicas e conclusões vagas.

Mas para a Iconoclastia fica cada vez mais certo que as religiões baseiam-se e procuram cada vez mais a pureza do arquétipo, pois o arquétipo é o que toca mais facilmente, o que cria significados. E para chegar a isso, as religiões plagiam, copiam, mudam alguns detalhes e fazem de tudo, desde a mais primitiva delas, para tornar um povo coeso e crente em uma história que lhes dê orgulho e superioridade, afim dar uma solução aos desesperos que nos causam aflição, uma recompensa, um consolo diante a uma realidade cruel.

Mas enfim, uma realidade.

O que você acha disso?

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