Indianara Siqueira, a trans que pode mudar a lei brasileira

No facebook está bombando a imagem da Indianara Siqueira. Ela pode mudar os rumos das leis brasileiras. Enquanto a gente não consegue mais informações sobre a Indianara, fiquem aqui com o depoimento dela.

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“Dia 13 de junho as 10h30, local Rua Humberto de Campos 315 /2° andar- Jecrim do Leblon,eu Indianara Siqueira serei julgada por Ultraje Público Ao Pudor.
Depois das “confusões” criadas na Marcha Das Vadias e criar o protesto “Meu Peito,Minha Bandeira,Meu Direito” onde algumas trans me seguiram, policiais ficaram atentos até conseguirem me deter. Após receber voz de prisão por desacato ao me negar a assinar o B.O. e liberada após pagamento de fiança feito por companheirxs Vadixs,recebi a intimação do julgamento.
Independente do resultado do julgamento e mais que uma pessoa ou um um coletivo,o que estará sendo julgado é o gênero, a imagem do feminino que não tem o mesmo direito que o masculino.
A justiça criará também um dilema.
Se me condenar estará reconhecendo legalmente que socialmente eu sou mulher e o que vale é minha identidade de gênero e não o sexo declarado em meus documentos e isso então criará jurisprudência para todas xs pessoas trans serem respeitadxs pela sua identidade de gênero e não pelo sexo declarado ao nascer.
Se reconhecer que sou homem como consta nos documentos estará me dando o direito de caminhar com os seios desnudos em qualquer lugar público onde homens assim o façam,mas também estará dizendo que homens e mulheres não são iguais em direito.

To be or not to be”

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Indianara não é apenas uma Transsexual, ela é uma líder. Atualmente é ela quem organiza a Marcha das Vadias no Rio de Janeiro. Claro, não sem rolar alguma confusão.

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Mas para falar sobre essa grande contestadora, nada melhor que ela mesma. Prepare-se para ler a sua auto-biografia:

“Nasci em 18 de maio de 1971,7 anos depois do golpe de estado q implantou a ditadura militar no Brasil. Aos 12 anos comecei a tomar hormônios femininos, fui babá, ajudante de pedreiro e madeireira, com meus irmãos era catadora de materiais recicláveis nas ruas de Paranaguá-pr. Fui office-boy, aos 16 anos sai de casa e me tornei ajudante de cozinha, cozinheira, pizzaiola em restaurante e casa de massas, aos 18 fui embora da minha cidade e passei a usar roupas femininas. Fui confrontada à falta de perspectivas de trabalho para travestis e transexuais, morei nas ruas de São Paulo e eu que tinha jurado jamais me prostituir virei prostituta em Santos, depois consegui sair e me tornei garçonete, fui demitida e passei a vender planos de saúde, demitida, pois ñ aceitavam minha transexualidade e como trabalhava com homolesbotransfóbicos, voltei à prostituição. A AIDS chegou ao auge e em 1995 aos 23 anos entrei para a militância contra o HIV/AIDS por ver amig@s morrerem de AIDS e uma irmã, mesmo ñ sendo portadora fui taxada de ser e isso ñ me importava e por conseqüência da prevenção.

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 Virei militante pelos direitos humanos, fui treinada pelo programa municipal de DST/AIDS de Santos-sp e na época capital mundial da AIDS e pelo ministério da saúde. Sobrevivi ao assassinato de amigas nas ruas, apanhei muito da policia e vivia dormindo nas delegacias para onde éramos levadas e deixadas até  terminar o plantão de manhã. Já recebi na cara sprays de amoníaco dado pela policia santista e de São Paulo, (…)  me tornei presidente fundadora do grupo Filadélfia de travestis de Santos e minhas denúncias levaram a ameaças e a ser algemada em um poste no José Menino em Santos por um policial e ter seu revolver apontado para minha cabeça e liberada, pois ele só queria me aterrorizar. No rio passei por uma tentativa de assassinato em 1996 ao sair de um programa com um capitão da marinha q é extorquido em 20 mil reais pelos policiais civis e depois eu teria q ser testemunha do capitão, em uma cobertura de cafetina no rio de janeiro minha morte é arquitetada por 10 mil dólares, eu tinha apenas 11 anos de hormonioterapia e cinco q me vestia com roupas femininas e era confrontada a tudo isso, o Filadélfia foi a 1° ONG no Brasil a exigir em uma conferência municipal de saúde q o nome social fosse obrigatório no prontuário medico das travestis e transexuais para q tivéssemos acesso a saúde dando pontapé à portaria do SUS de nome social hoje obrigatório em vários setores dos serviços públicos no Brasil. Na mesma conferencia conseguimos q casais homoafetivos fossem considerados cônjuges de fato e que em caso de internação travestis e transexuais fossem internadas em separado ou nala feminina, foi uma das mais polêmicas conferências municipais de saúde do Brasil sendo noticiada até mesmo no exterior. Realizei o 5° entlaids em SP, fiz denúncias e fui ameaçada de morte, entrei para a proteção de ONGs internacionais. Fui vendida por sete mil dólares como prostituta na rede de trafico internacional, paguei, fugi e briguei no consulado brasileiro em Genebra para conseguir um passaporte de emergência valido por 30 dias e poder voltar ao Brasil em vôo saindo de Paris com conexão de 10 horas de espera em um domingo véspera de meu niver no aeroporto de Madri e de lá para São Paulo pegando um ônibus para o rio de janeiro, pois meu intuito era passar meu aniversario de 27 anos em casa na segunda-feira. Retornei a Suíça em 1999, pois em São Paulo a policia fabricava provas contra as travestis q se prostituiam nas ruas colocando drogas em suas bolsas e exigindo cinco mil reais para ñ prende-las. E quem ñ pagava ia pra cadeia.

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Chegando à Suíça quebro a maneira de explorar as prostitutas alugando para elas (q antes tinham q pagar 50% de todo ganho) apartamentos por diária de 100 a 150 francos suíços todo mundo ganhava e provei q era possível ganhar sem explorar e claro mostrando as prostitutas q era possível outra maneira de trabalhar. Fui ameaçada deu briga com a rede de trafico internacional de pessoas e tive q fugir dessa vez sendo procurada pela policia Suíça já q a briga foi feia e teve feridos. Fugi pela fronteira italiana através de uma cerca furada em um carro q cobrava 500 dólares e q me esperava do lado italiano para me levar a Milano de onde iria para a casa de uma das vitimas de meus inimigos  q era testemunha em um processo na Suíça, da Itália fui para a França e de lá para a Espanha trabalhar em clube de prostituição dava 50% dos ganhos para o clube,voltei para a frança trabalhar em um apartamento de brasileira  onde dava 50% e conseguia clientes através de anúncios na revista La Vie Parisienne, consegui novamente me “libertar” e passei a trabalhar por conta própria, peguei apartamentos e comecei a alugar para as prostitutas novamente por diárias.

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Daí recomeçaram as ameaças, já q quebrava assim a cafetinagem dos 50% e o trafico de seres humanos para a prostituição, já q as vítimas encontravam em mim refúgio,voltei à Espanha e denunciei várias redes de trafico de pessoas, inclusive a africana. Sofri uma tentativa de assassinato e tive q pular do 3°andar de um prédio para me salvar e a conseqüência foram 25 dias sem andar e ao voltar a andar usar bengala e fiquei com seqüelas e assim protegida por uma rede de vitimas q ajudei me coloquei em pé novamente e fugi para Strasburgo na França onde ia denunciar geral, mas havia uma denúncia às autoridades francesas contra mim por proxenetismos (cafetinagem), já q pelas leis francesas mesmo q vc empreste seu apartamento para uma prostituta vc é cafetina,imaginem eu com vários em varias fronteiras e mais de 50 pessoas hospedadas,sendo q 6 me denunciavam,sem chances de provar o complô contra mim,já q fui algemada para a prisão de Strasburgo e de lá transferida para paris 2 dias depois onde fui levada para a prisão de fléury merogis e 18 meses depois fui condenada a 7 anos de prisão,dos quais teria q cumprir 2 anos e meio e ser deportada sobre condicional. Em Fleury merogis o desrespeito e maltrato as travestis era uma violação dos direitos humanos,e a mesma lei francesa q me condenou por cafetina enviava para a prisão travestis q se prostituiam e q ñ podiam pagar as multas dadas pela prática da prostituição nas ruas,denunciei a prisão,fui ameaçada e mudei as regras de fléury, as travestis e transexuais ñ podiam mais serem chamadas de sr, somente pelo sobrenome e passaram a ter direito a roupas mais femininas assim como uma lista de compras designada “pharmacia transgender” com maquiagens,esmaltes etc., já q antes era ” pharmacia para homens” sem nenhum produto feminino.minhas amigas q me visitavam diziam q o melhor para mim era estar presa,já q do lado de fora minha morte era arquitetada,2 anos e meio depois recebi a liberação condicional expulsão q recusei,então a juíza manda me chamar e pergunta o porque da recusa eu explico os riscos q corro fora e ela explica q a lei a obriga a me liberar sobre expulsão,mas ela me dará 3 meses mais de prisão usando a desculpa de revisar meu processo e assim me dando tempo para articular uma maneira de me proteger, 3 meses depois saio algemada da prisão de fléury em direção ao aeroporto Charles de Gaulle para ser expulsa de volta ao Brasil, no avião conheço uma brasileira q está grávida e sendo expulsa sem mesmo ter chances de falar com o pai da criança q leva no ventre e seu namorado,ela sem dinheiro chega ao rio e decido ajudá-la já q trago comigo dinheiro do trabalho de fabricar piñatas na prisão,pois ñ consigo ver o sofrimento alheio e ñ fazer nada.

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 Em 2009  recomeço a luta de sempre pelos direitos humanos e contra a exploração das profissionais do sexo e as ameaças recomeçam ,mas decido ñ me esconder mais e sim me mostrar cada vez mais e Copacabana se torna o único território livre do rio de janeiro onde travestis e transexuais,assim como mulheres q se prostituem ñ precisam mais pagar rua e nem são agredidas por cafetinas,volto a ser ameaçada e com a cabeça posta a prêmio dou entrada no Programa de proteção aos defensores de direitos humanos q na realidade é inexistente no rio de janeiro, hoje sou presidente do sindicato dos profissionais do sexo do rio de janeiro, na redetrans do Brasil (filiada à redlactrans da America latina e caribe) sou a representante da região sudeste sendo responsável pelas denúncias nos quatro estados da região  e continuo as denúncias, quase todo mês tenho q mudar de apartamentos, pois alugo vagas para travestis e transexuais e a maioria se prostituí , assim como recebo também as doentes até se recuperarem e as que, como a Carol, necessitam de ajuda e onde morar mesmo q ñ possa pagar, sei q logo terei q me esconder talvez ou arriscar tudo e ficar o q é mais provável, pois cansei de fugir e viver escondida, mas se algo acontecer quero q cuidem ao menos de Carol, para que ela ñ volte a morar na rua e olhem pelas minhas outras “filhas”. Por Favor!  Beijos.

Indianara Siqueira, trans, prostituta, militante, ex-presidiaria e persona non grata na França de quem recebeu em forma de “diploma” uma condenação como proxeneta (cafetina) odiada pelas milícias e cafetinagens.  Sob proteção do programa de proteção aos defensores de direitos humanos”

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O que é verdade ou não desses depoimentos não sei, não foram conferidos. Esta publicação contou apenas com a confiança. Se ela vai conseguir mudar a lei, isso não sabemos também. Mas se ela foi arrestada por crime de pudor e ela é considerada homem pela lei, então a lei está errada em suas definições e precisará mesmo ser revista. Suas ideias e seus pontos de vista podem chocar, mas é de choques que se faz  o progresso.

Termino com uma imagem e frase da Indiara. Se quiserem compartilhar este post, agradeço muito. Se quiserem apenas compartilhar uma imagem, é esta aí de baixo. Basta clicar nela para migrar para o Face onde foi originalmente publicada, simultaneamente com esta edição. Vamos forçar a sociedade a rever seus pontos de vista, através das incoerências que ela apresenta em suas definições.
Indiara Siqueira

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Aproveitando a carona…

Bichona

Parabéns, Laerte!
62 anos hoje!

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