Não seja um feministo

O texto a seguir é de um dos nossos editores, o Marcos Kligman. Reflete só a opinião dele, mas achamos que valia um post aqui na Iconoclastia para debate.

Não sou feministo
E acho estranho meus amigos homens que dizem que são.
Ora, se o feminismo exclui os nossos privilégios, quem é que luta contra seus próprios privilégios?
Acontece que a gente diz que é favorável ao feminismo pra não criar inimizade com as mulheres. Pra ter uma namorada, pra ficar com alguém.
E isso só acontece com o pessoal da esquerda, essa hipocrisia da esquerda.
Na direita não, todo mundo é contra o feminismo, até mesmo as mulheres que opinam livremente e dirigem e são donas de empresas e divorciam. Elas se beneficiam do feminismo, mas dizem que são contra.
Hipocrisia dos homens da esquerda, burrice mesmo das mulheres de direita.
O que os feministos fazem não é serem feministas. Não é isso.
O que acontece é que na balança dos privilégios, cabe mais ao homem dizer que é feminista do que perder as benesses de dizer que não é.
Mas fato é: nenhum homem é feminista.
Tá certo que toda a sociedade se beneficia da justiça social e da igualdade, mas ninguém quer a igualdade, ninguém quer dividir o que tem a mais com outras pessoas que tem a menos. Poder, no caso.
Todo mundo quer diminuir as emissões de gases nocivos ao meio ambiente, mas ninguém quer reduzir o consumo.
Todo mundo é contra o Bradesco ser perdoado pelas dívidas do INSS, mas ninguém fecha a conta.
Porque é isso, somos hipócritas.
E os homens não são diferentes.
A gente só diz que é a favor do feminismo porque senão só teria coxinha pra se relacionar (haja estômago).
Homem “desconstruído” é pior ainda, mais falso que nota de 3.

Nós homens temos que parar com esse discursinho de “aceitação” da luta feminista. Eu queria ver por aí homens que aceitam porque foram dobrados e que digam isso na cara dura. A gente não “aceita” coisa nenhuma! Se tu leva uma surra de um monstrão, tu não chega nele e diz que ~aceita~ que ele te espancou, tu só admite. E isso não é nem opção. Nós não estamos “do lado” delas, apenas levamos essa surra.
Então eu sou machista?
Pela opinião de alguns que me conhecem, não sou. Mas estão enganados, eu sou sim, desculpa aí. Porque todo homem é machista.

E aquele “Mas nem todo homem…” não é só uma burrice hipócrita, mas é uma burrice hipócrita e desonesta intelectualmente.
– Burrice porque recorre à falácia aristotélica da parte pelo todo.
– Hipocrita porque coloca a si mesmo como um gênero a parte, como se ele fosse diferente do homem que ele é de fato.
– Desonestidade intelectual porque finge ser possível alguém lutar contra seus próprios privilégios de modo honesto. Ninguém faz isso, por favor!

O que sim, pode haver é que alguns compreendam a luta feminina e suas demandas porque essas demandas atuam sobre aquelas formas mais agressivas de machismo que não os envolvem. Que não os envolvem, repito.
É daí que vem o “Mas nem todo…”

Minha sorte é que tem homem cujo machismo é mais agressivo que o meu, falei.
Então a pauta feminista recai sobre esses outros caras e UFA, não me viram aqui, disfarçadinho.
Então eu não sou feminista. Eu sou feminista PARA UMA PARTEZINHA DO FEMINISMO.
Aí sim, não me afeta, eu posso apoiar, tá tudo certo, confortável.
Meu medo mesmo é da feminista radical, a que tem uma visão que penetra no meu cantinho esconderijo e que mostra a mim mesmo, que me desvela como um retrato de Dorian Grey.
É por isso que não existe feminismo radical, o que tem são as mais aguçadas e desconfiadas, “casualmente” as mais radicais.
E quando eu sou desnudado assim, eu rio, mas não é delas, é riso de brasileiro, da própria desgraça, de comediante que levou um fora.

Mas, se não são essas, aí eu sou feminista, muito fácil ser feminista, oba oba.
Mas no dia que essa água bater na minha bunda, aí eu vou chiar. Vou ser IGUALZINHO aos que hoje são atacados. É tudo uma questão de que pé está o feminismo.

Então eu sou machista?
Bem vamos relativizar, eu preciso me defender. Nunca confie na palavra de quem não se defende.

Do momento que a gente chama todos os homens de “machistas”, mesmo que tu esteja com a razão, fica complicado separar entre os vários níveis de machismo, daquele que “até passa, mas hunf…” daquele outro mais escroto. Lembra das aulas de português, tudo flexiona em gênero, grau e número. Então chama-se de “machista” o homem que, a partir de certo ponto (daquilo que ele já é), ganha o rótulo.
Sim, todo homem é machista, mas, para fins de organização e classificação, estou de fora.
Mas que esse detalhe não seja esquecido, que essa relativização não seja esquecida.
Porque, se depender do progresso, é melhor eu me aligeirar.

Pra essa água não bater na minha bunda.

 


Marcos Kligman mora em Porto Alegre, trabalha com cinema e posta na Iconoclastia desde 2012

 

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