Categoria: Metalinguagem

Sobre ter cuidado com as suas ideologias

 

injustiças

Discutir os assuntos sem coitadismos, sem paixões por ideologias ou bandeiras, sem um lado.

Visar a justiça e a igualdade. Quando é assim, ninguém precisa cuidar de ser respeitoso, ofensivo ou politicamente correto.

Iconoclastia nunca foi muito de dar “respeito”. Até porque tem muitas formas de ser injusto ou preconceituoso com palavras, termos e gestos respeitosos.

Também ocorre que quando se fala uma verdade para alguém que acredita numa mentira, o crente se sente ofendido e sua impressão é que a verdade lhe falta o respeito. E deve ser verdade, deve faltar mesmo.

Alguma prepotência dos ofendidos e magoados costuma vir de dentro de um grupo realmente vitimizado e que necessita realmente de representação urgente, afim de evitar o prosseguimento da injustiça.

Quando se faz louvor a uma ideia, se fecha o espírito crítico para a auto análise. Dessa forma:

Grupos afetados pelo preconceito racial admiram o líder Zumbi, mas esquecem que ele mesmo aprovava a escravidão e tinha mesmo escravos

Grupos afetados pelo machismo promovem (com toda a razão) o Feminismo, mas alguns não conseguem observar que dentro desse grupo existe também o Femismo (que nada mais é que machismo ao contrário).

Ateus generalizam apressadamente os defeitos de alguns religiosos, esquecendo que religiosos não são sempre os que doam todo o dinheiro para a Igreja, existem grupos evangélicos, (como os da Igreja Bastista Betel) que lutam e muito ferozmente contra as injustiças sociais.

Enfim, a lista é extensa. O que ocorre é que quando se escolhe um grupo ideológico para atuar, acaba-se com uma paixão tão grande por suas diretrizes que não se veem mais os erros, ou defeitos da própria crença. A auto-crítica se encolhe ou mesmo desaparece. É o tal “Eu não tenho preconceitos, MAS…”

Os grupos ideológicos, as bandeiras são uma forma de pensar mais fácil, rápida e menos cansativa. Não é a toa que as coisas que terminam com “ismo” são associadas com religião, doutrinas ou ideologia.

Por isso escolhemos a iconoclastia. Porque você pode condenar Hitler,mas tem um pedacinho da sua obra que é fantástica: foi o primeiro a reconhecer os direitos aos animais e sua importância. Enquanto isso, o sábio e pacifista Albert Einstein, era um misógino, batia na mulher e fugia com amantes.

Então, como lidar com essas figuras? Amaldiçoar um e endeusar o outro? Não dá pra perceber como isso é estúpido?

Infelizmente não há como ser iconoclasta e ser educado. Não porque a postura iconoclasta seja grosseria ou agressivamente dolosa, mas porque a verdade ofende.

Um dos maiores iconoclastas do século, Mencken, que foi chamado de anti-semita, mas que também falava mal dos cristãos, dizia que as pessoas que querem mudar o mundo para melhor querem que o mundo mude com a SUA versão do que é melhor. E sempre se colocam como donos da melhor versão. Querem enfim, serem os ditadores da melhor versão.

Henry Louis Mencken

 

A verdade não está do lado dos que sofreram nem dos dominadores. Em algum ponto, os apaixonados estarão errados.

A iconoclastia é apaixonada também, pela verdade, mas obviamente isso pode ser só mais uma crença. Fica então o convite para relativizarmos SEMPRE as nossas crenças mais profundas.

Rola, O Discurso

Discurso de Fábio Porchat sobe a tentativa de censura fracassada do seu vídeo:

Nesta semana, uma pessoa entrou com uma ação para retirar do ar um vídeo do YouTube do canal de humor Porta dos Fundos do qual, por acaso, eu sou sócio-fundador. O vídeo se chama Rola. O nome, apenas a título de explicação, não é a conjugação do verbo rolar. Tivemos o ganho de causa dado pelo MP, porém, me preocupa saber que alguém, ainda hoje, queira proibir alguma coisa.

Justamente no Brasil, onde vivemos um período de censura tão marcante e profundo. O que o requerente diz é que o vídeo fere a moral e os bons costumes. A moral de quem? Os bons costumes de quem? O vídeo tem seis milhões de acessos. Ninguém é obrigado a gostar do esquete, mas impedi-lo de existir? Eu te confesso que, pra mim, a definição de humor é ferir a moral e os bons costumes. Sempre. Repare, não é humilhar, difamar, ofender, mas sim, pegar a sua moral e os seus bons costumes e colocá-los em uma corda bamba, para que você tropece em cima dos seus preconceitos, para que você se coloque em xeque! O humor te expõe!

Acho muito forte alguém querer proibir as outras pessoas de verem um vídeo porque se ofendeu. Ninguém é obrigado a ver, vê quem quer. Se eu me ofendo, parto do pressuposto de que todo o povo brasileiro (e mundial, afinal internet é global) também está ofendido? Não seria melhor deixar a maioria decidir? Será que essa uma tem o direito, por exemplo, de proibir seis milhões? E olha que não estamos falando de televisão aberta. Quando eu ligo a minha TV, imediatamente pulam imagens e vozes saídas da tela.

Na internet, não é só ligar o computador. Preciso acessar uma rede, digitar um endereço virtual, acessar um site, clicar num vídeo, para aí sim, as tais imagens e vozes pularem pra dentro da minha casa. Acho bem diferente. Pruma criança assistir a um vídeo, ela precisa passar pelos mesmos caminhos. Eu não tenho filhos, mas perguntei a alguns amigos pais e todos eles me dizem que não deixam os filhos entrarem na internet sem a supervisão deles, para não verem pornografia, não correrem riscos com desconhecidos em chats, não assistirem a materiais impróprio pras suas idades…

Por isso mesmo é que existem vários mecanismos que geram senhas para bloquear o acesso para um menor de idade no seu computador. Proibir a existência de um vídeo na internet me parece querer jogar a culpa no outro, fugir da sua responsabilidade. Eu não quero que exista um tipo de conteúdo, para não ter que me preocupar. Mas você tem que se preocupar! Sempre! Tenho certeza de que, pior que um vídeo de comédia que fale palavrão, é uma pessoa sendo decapitada, pessoas sendo baleadas, políticos falando, qualquer coisa, porradaria em estádio, cenas que estão disponíveis na internet e na TV aberta, inclusive.

A pessoa alega que seus filhos não precisam ver aquilo. Não precisam mesmo. Por isso mesmo que você, pai ou mãe, não vai deixar. Você é o censor do seu filho. Não da sociedade. Fique tranquilo que cada um sabe de si. Então vamos tirar do ar o site da Playboy, vai que seu filho entra lá. Vamos tirar do ar a globo.com que reproduz seus telejornais com as notícias mais escabrosas que aconteceram no mundo. Ou qualquer vídeo do ex-governador do Rio de Janeiro, Garotinho, falando qualquer coisa. Vamos tirar do ar os vídeos do Feliciano pregando em sua igreja, porque isso sim ofende a minha moral e os meus bons costumes. Acho que as pessoas têm de começar a se preocupar e se ofender com coisas mais relevantes. O dia em que todo mundo começar a se sentir ferido com quem prometeu e não despoluiu o Tietê ou com quem superfaturou a Água Espraiada, aí sim eu topo ir no MP. Enquanto isso, divirta-se

Fábio Porchat