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Bob Dylan e a revolução de 1966

Gostos musicais dependem só da opinião de cada um, mas esta história eu tenho que contar, porque foi um ato muito iconoclasta que aconteceu.

Mesmo ainda na América, na Turnê de 66 o judeu já tava pra lá de Bagdá
Mesmo ainda na América, na Turnê de 66 o judeu já tava pra lá de Bagdá

 

Em 1966 Bob Dylan era um compositor de folk music com bastante sucesso por causa das suas letras contundentes. Um dos orgulhos (pra vocês verem como todo orgulho é uma merda) dos folks em relação aos outros gêneros era que o folk era pra pessoas “letradas” que curtiam poesia, que debatiam os assuntos. Havia um grande preconceito contra o rock. O rock era todo feito com letras bobinhas, “sacudir as pernas”, “ame, ame-me”, “eu vou pegar na sua mão” e todo tipo de letrinhas simples.

Nesse ano Bob Dylan iniciou uma turnê mundial, (era raro, não haviam turnês mundiais) equipado com instrumentos elétricos, característicos de rock.
Era uma coisa nunca antes vista: as letras profundas de Bob Dylan sendo tocadas com aquele formato tosco do gênero mais abobado, que era o rock. As pessoas que seguiam o modo folk ficaram muito magoados. Viria a ser algo como o Chico Buarque fazer funk pancadão. As pessoas simplesmente odiaram Bob Dylan, pela traição que ele cometera. O som das guitarras era altíssimo, ele estava muito louco com várias drogas que estava usando, mas sua cabeça estava a mil, criando poesias torrencialmente e todas elas eram demais contundentes e chocantes. Durante os shows, os espectadores vaiavam e gritavam: “Judas”… “traidor”. E Dylan respondia aos desafetos, fazendo os shows pularem do amor ao ódio em picos fortes. “Anticristo” gritou alguém do fundo. “Isso é uma mentira. Você é um mentiroso” respondeu Dylan.
“Está muito alto” reclamou alguém, acostumado com o show solo com violão, harmônica e voz. Dylan, antes da última música, vira-se para a banda (futuramente a The Band) e ordena: “Vamos tocar essa música fudida BEM ALTO“.

“Onde está o poeta?” perguntou alguém das galerias superiores. “Não sou nenhum santo” respondeu Dylan.

Não queria saber de mistificações, de nenhum tipo, por isso chamamos  ele de iconoclasta. Na verdade o  real motivo de chamarmos Bob Dylan de iconoclasta está nas suas letras, que quebram mitos desde o começo até o fim, até mesmo quando fala de amor, ele fala de um jeito todo realista e impactante.

Outros insurreitos partiam para as vias de fato. Numa das apresentações alguém roubou o machado de prevenção a incêndios e partiu pra cima dos cabos dos instrumentos, mas foi detido.

 

 

LP ao vivo lançado na Austrália. Dylan também topcou nos países nordicos, culminando em Paris e Londres.
Enquanto no rock convencional todos falavam bem do amor como sendo uma coisa bonitinha e cutie, Dylan vomitava: “O amor é um corvo, na janela, com a asa quebrada”

Robert Zimmermann estava rompendo as fronteiras musicais do seu tempo, sendo anos depois rotulado por isso como “O maior Artista do século XX”. A partir dele, o rock tinha um precedente para colocar letras profundas na roupagem musical POP. Dylan, ao trazer para o POP a profundidade musical e das letras, abriu precedente para uma quantidade incontável de misturas. E fez isso apenas quebrando normas.  O surrealism0 das suas letras dentro do folk (e suas apresentações com rostos maquiados de forma anormal) fixaram o surrealismo como tendência, abrindo caminho para os Beatles e o Pink Floyd entrarem por essa seara.  Criou também espaço para o canadense Neil Young, avô de todos os grunges.

Bem, de fato é impossível calcular até onde alcança sua influência, mas chega facinho até a música brasileira.

 

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A turnê acabou  no dia 29 de julho de 1966, quando ele inventou à imprensa supostamente Dylan teria se ferido em um acidente de moto, que nunca teve entrada em hospital nenhum.
1966 foi um ano tão forte que ele só voltaria aos palcos em 1974.

Dylan e sua moto Triumph: O último beatnick.
Dylan e sua moto Triumph: O último beatnick.

 

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Bônus: Especialmente pra vc que chegou até aqui, eu fiz uma página com uma letra bem iconoclasta do Bob Dylan com o original em inglês, a tradução, o som e uma fotinho dele, pra ver como a letra é phoda mesmo, muito iconoclasta